Nosso desafio comum

É preciso construir compromissos e instrumentos que ajudem a combater o aquecimento global e a promover a justiça climática, diz a ex-primeira-ministra da Noruega e enviada especial da ONU Gro Brundtland

Por Amália Safatle e Flavia Pardini

Página 22: O que significa a premiação de Al Gore e do IPCC com o Nobel da Paz?

Gro Brundtland: Acho que foi uma escolha muito boa do comitê do Prêmio Nobel. Eles já haviam feito boas escolhas antes, mas também foram criticados por essas escolhas. O prêmio amplia a perspectiva e a definição da idéia de paz, deixando claro que, na opinião do comitê, o desenvolvimento sustentável, o meio ambiente e a superação da pobreza são parte da agenda da paz. Acredito que estão convencidos de que não haverá paz no mundo a não ser que superemos grandes obstáculos nessas áreas.

Acho que foi uma boa coisa o fato de que, este ano, eles se centraram na mudança climática e no aquecimento global porque esse é um tema candente que o mundo precisa enfrentar. Alem disso, foram dois recipientes, deliberadamente. Um, o IPCC, ilustra a necessidade de conhecimento, de evidências, da ciência. Para enfrentar esse tema tão difícil, é preciso saber os fatos, compartilhar o conhecimento de maneira que as pessoas se tornem capazes de encontrar formas para enfrentar o desafio.

Sem o IPCC e seu trabalho, o mundo não estaria onde está agora, encarando o aquecimento global sem que players importantes questionem os fatos. Essas pessoas agora admitem que temos mudanças no clima causadas pelo homem. Isso não acontecia há um ano…

22: …mas ainda há críticas ao trabalho do IPCC.

GB: Elas não contam mais. O ponto é: o presidente do Estados Unidos parou de dizer que a mudança climática não é real, que temos de duvidar da ciência. Agora ele diz que, sim, há razão para acreditar que há mudanças causadas pelo homem. Disse isso em um discurso ao Congresso em janeiro. Isso significa que um importante obstáculo foi transposto e que a base de conhecimento é ampla, forte e compartilhada o suficiente para que o mundo conheça o desafio.

Mas, para que seja possível espalhar a mensagem, ter 2.500 cientistas trabalhando duro e analisando o assunto é essencial, mas não suficiente. É preciso que a mensagem, ou essa realidade, seja espalhada de maneira que informe a opinião pública. É aí que entra Al Gore. Então houve uma combinação. Claro que Al Gore sempre construiu suas políticas com base na ciência, assim como eu sempre fiz em meu trabalho. Ele sabe da necessidade da ciência, mas gastou muito tempo e esforço para espalhar a mensagem.

22: O que pode mudar, na realidade, após o Nobel, visto que as práticas capitalistas em relação a consumo, produção e remuneração dos investidores estão ainda atreladas a um paradigma velho?

GB: O prêmio reforça a importância do tema para o mundo todo, para a paz no mundo. Assim, cria uma base efetiva para aprofundar a campanha. Quando se pensa sobre como lidar com a mensagem, vê-se a necessidade de construir o consenso para que haja um sucessor (do Protocolo) de Kyoto no âmbito da Convenção do Clima (Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática). Construir esse consenso requer encarar os assuntos que preocupam os países pobres, os problemas que eles enfrentam por causa da mudança climática, encontrar soluções inovadoras para a energia. As pessoas precisam de energia, saúde e educação para levar uma vida produtiva, mas esses elementos têm de ser sustentáveis. Vai ser mais fácil de se chegar a um acordo sobre essa combinação, eu acho, a partir do momento em que o aquecimento global é uma realidade que as pessoas não mais questionam seriamente.

22: O que se pode esperar das negociações durante o encontro das partes da Convenção do Clima em Bali, em dezembro? Não há um descompasso entre o ritmo das negociações e a urgência da crise climática?

GB: O ritmo das notícias que dão conta dos acontecimentos ainda mais rápido do que os cientistas acreditavam que ocorreriam só contribui para o momentum, e cada vez mais países e outros players compreendem que é preciso encontrar soluções. Acho que Bali é uma encruzilhada importante, porque todos os países terão a sensação muito clara de que é preciso agir para construir o consenso. Se não houver mais consenso do que havia um ou dois anos atrás, então teremos um problema, pois é vital que haja algum tipo de combinação entre as visões dos países que estão fora do âmbito de Kyoto, como os Estados Unidos, e os países que não possuem compromissos (de reduzir as emissões de gases de efeito estufa), como o Brasil, a China e a Índia, para citar alguns. Olhando para a frente, 10 ou 15 anos, não é possível imaginar uma solução para esse problema a menos que os países em desenvolvimento que estão emergindo como grandes economias sejam parte da solução.

22: Como trazê-los para a mesa de negociações se eles entendem a mensagem como uma restrição ao crescimento? É como dizer: “Desculpe, vocês chegaram muito tarde ao jogo”.
GB: Sim, mas veja: fazer a sua parte não significa aumentar a carga sobre os países em desenvolvimento. Soa como se fazer a coisa certa fosse, de alguma maneira, fazer para benefício de outro, mas você está fazendo para si mesmo, para o desenvolvimento futuro de seu próprio país. Precisamos repetir isso.

É por isso que eu digo que é preciso haver colaboração mais ampla e mais séria quanto aos temas do desenvolvimento sustentável ao redor do mundo. A Noruega, para pegar um exemplo. Estamos lidando com as fontes locais de poluição e o aquecimento global em nosso próprio território e em nossa plataforma continental. Fazemos isso e adotamos medidas muito rígidas sobre nossos próprios sistemas produtivos, o que significa que somos obrigados a reduzir ainda mais nossas emissões, porque somos um país que produz petróleo e gás.

22: Não seria melhor parar de exportar petróleo?

GB: Não, absolutamente não. Não concordo de maneira alguma. Assumimos um compromisso de aprofundar esse trabalho e, à medida que o tempo passa e por saber que precisamos pensar nos próximos 30 anos, além do que fazemos em casa temos que pagar para que as emissões sejam reduzidas em outros países. O financiamento para que isso ocorra pode se destinar, por exemplo, a projetos para a água em países pobres da África, onde a seca e a mudança climática alteraram os padrões de agricultura e a demanda por água. Ou para locais onde o nível do mar está subindo. Então, o dinheiro pode vir das nações ricas para ajudar as nações pobres a fazer a coisa certa, apoiando-as, fornecendo tecnologia. Isso é parte das negociações internacionais.

Mas vamos voltar à Noruega, pois essa é uma questão muito interessante. A Noruega deveria encerrar a produção de petróleo e gás no Mar do Norte? Eu digo que não, absolutamente. E por que não? Porque o uso alternativo de energia àquela que a Noruega produz, se olharmos para o cenário global, seria muito pior, pois extraímos petróleo e gás com emissões mais baixas do que qualquer outro país. Agora estamos até capturando e armazenando o carbono nas usinas de energia movidas a óleo e vamos fazer isso também nas usinas a gás, o que nunca foi feito antes. Isso significa que as emissões são muito reduzidas ou quase nulas, pois o carbono é capturado e armazenado no subsolo em estruturas seguras.

Se você retirar o petróleo e o gás limpos do serviço de energia da Europa – ou do mundo, pois parte desse gás atravessa o oceano também – , você ficaria pior, não melhor. O que aconteceria? As pessoas usariam mais carvão e petróleo retirados de fontes que não usam esse tipo de tecnologia.

22: Não haveria também um impulso para encontrar energias mais limpas?

GB: Não acredito. Os incentivos têm que ocorrer ao se dar um preço para o carbono que leve ao investimento em energia renovável, de maneira que haja um imposto sobre as emissões. Esses tipos de instrumentos econômicos precisam ser mais bem desenvolvidos: incentivos e desincentivos. Você precisa pagar pela poluição. O princípio do poluidor-pagador é um bom princípio, foi desenvolvido há mais de 30 anos e é preciso pensar nesses termos: você não pode externalizar o custo ambiental para que seja um custo da sociedade, é o seu custo. Se pensar dessa maneira, vai inspirar a busca por energia renovável, porque o custo de extrair e desenvolver carvão, por exemplo, seria muito maior caso se leve em consideração o custo real, se for preciso pagar muito pela permissão para usinas a carvão. E se esse dinheiro pode ir para investimentos em países pobres. Precisamos de mais pesquisa e investimento em energia renovável e o preço do carbono é essencial para isso.

22: Qual é o impacto da mudança climática na emergência e re-emergência de doenças infecciosas registradas neste século?

GB: Há um duplo efeito. Primeiro, a mudança climática leva a alterações nos padrões agrícolas e à falta de água, o que resulta no aumento da pobreza e causa mais problemas de saúde, e isso cria uma espécie de padrão. Mas, além disso, há um efeito direto nas ameaças infecciosas por causa do aumento da temperatura, a malária vai se espalhar para nova áreas e a dengue estará presente por mais tempo em novos ambientes, porque a temperatura está mais alta.

Há um efeito adicional direto que é importante que as pessoas conheçam. Isso em adição às secas, às enchentes e aos furacões, ao aumento do nível do mar, ao derretimento das calotas polares. E há doenças, que há muito não se via, ou se via raramente, que estão voltando porque a temperatura proporciona boas condições.

22: Tanto em relação a doenças quanto ao aquecimento, parece que o fosso entre pobres e ricos aumenta em relação ao que já existe hoje no mundo. Por outro lado, os ricos parecem acreditar que a tecnologia fará com que sejam menos afetados. Como esse problema altera a maneira como o tema é tratado politicamente?

GB: Acho que temos de olhar para a realidade de que você não pode ser esconder, como pessoa, porque você é rico e pode se mudar. Não pode se esconder das conseqüências de longo prazo da mudança climática. Se você se mudou para a Flórida por que é rico e porque tem a chance de viver uma boa vida lá, e há furacões mais freqüentes e fortes ou, pior, se o nível do mar sobe e alaga as casas, você é afetado. As emissões são globais e provocam danos em todo o mundo.

Mas, é verdade, alguns dos efeitos afetam mais as nações mais pobres por causa de sua geografia, sua agricultura, sua dependência dos padrões de chuva e seca. As conseqüências são mais sentidas em países em desenvolvimento e pequenas ilhas, que em geral estão entre as nações mais pobres. É por isso que é preciso negociar algo para que se possa ajudar essa nações. É isso que defendemos, um acordo que abra espaço para adaptação, para suporte e ajuda para que os países pobres superem essas ameaças.

22: A justiça climática é parte do que está sendo negociado nesse momento?

GB: Esse tipo de pensamento já é parte da Convenção do Clima e do Protocolo de Kyoto, mas os mecanismos não são suficientes, não são bons o suficiente, por isso as negociações dessa segunda fase têm de ser compreensivas e produzir mecanismos melhores que ajudem a superar esse desafio.

22: Uma pesquisa feita no Brasil mostrou que há muita confusão em relação ao conceito de desenvolvimento sustentável. Por que a definição obtida na Comissão Brundtland, que parece tão clara e límpida, até hoje se mostra muito incompreendida ou desconhecida no Brasil e, provavelmente, em outras partes do mundo?

GB: Não há confusão no meu país e em muitos outros. Eu já ouvi essa pergunta, ou perguntas semelhantes a essa, de outras pessoas, e fico me questionando… Quando existe confusão em uma área tão importante, freqüentemente é por participação ativa de pessoas que criam confusão. É porque diferentes fontes, a mídia, as empresas, os políticos, o que seja, estão fazendo confusão.

22: Para seu próprio benefício?

GB: Pode-se suspeitar que sim.

22: Para que se chegue a um conceito mais conveniente?

GB: Se não gostam porque ele exige muito esforço, então talvez tentem evitá-lo. Os críticos do IPCC e da ciência sobre o aquecimento global empenham muito esforço ajudando os governos que não querem se mexer, dando argumentos, contra-argumentos: não estamos dispostos a fazer nada porque não estamos certos de que a ciência está correta, acreditamos que se podem encontrar outras maneiras, acreditamos que as mudanças se devem a variações naturais.

Mas sempre fica a pergunta: de onde vêm esses argumentos? E por que aparecem? Por que são tão persistentes ao longo do tempo? Eles servem a certos interesses. Pode ser que haja confusão porque alguém está criando confusão. É preciso conhecer a cena brasileira para analisar quem diz o que e quem cria confusão. É verdade que a situação exige mudança de políticas para fazer o que é necessário. Se é isso, então é confusão, sim – não se trata do business as usual, mas de mudar.

22: Vinte anos depois do relatório Nosso Futuro Comum, como a senhora vê nosso futuro compartilhado sobre a Terra?

GB: Se você acredita que as coisas vão acontecer de acordo com as tendências que existem hoje, então não temos muito tempo, teremos um drama antes da metade do século. Nesse caso, a única esperança é que essas tendências estejam sendo alteradas por diferentes atores. Não é que as negociações estejam se dando no âmbito de um processo complicado e longo enquanto nada está acontecendo. Muitos países e empresas agem enquanto essas negociações se desenvolvem. Não é que todos estejam confortavelmente sentados, esperando os resultados, todos sabem em que direção esses resultados virão, que tipo de limitações e incentivos podem ser adotados. Acho que temos de ter esperança de que as pessoas estão agindo por conta própria.

Mas, no final, não haverá ação suficiente sem compromissos reais, e é por isso que eu não acredito que o modelo americano de ações voluntárias será suficiente, pois as pessoas sempre olharão para o país vizinho, para a empresa vizinha, e dirão: “Temos de ter cuidado para não fazer mais que os outros porque vamos perder competitividade”. Se esse tipo de pensamento prevalecer, as coisas serão muito lentas. Por isso precisamos de uma força que mova as negociações, o que levará a mais energia renovável, a mais investimentos naquilo que é necessário para mudar o paradigma, mudar a situação. Precisamos mudar dentro de 10 a 15 anos. Não temos mais tempo do que isso. Nosso futuro depende da habilidade dessa geração de fazer o que é certo.

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