Diálogos com o eu primitivo

[Esta entrevista com Eduardo Navarro aborda as línguas faladas pelos povos colonizados no Brasil. Leia aqui a entrevista com Antônio Carlos Sartini, que mostra como o colonizador português impôs a sua língua]

O que pode levar engenheiros, médicos e executivos a frequentar aulas de tupi antigo, a língua falada por grupos indígenas que há milhares de anos viviam nestas terras? Só a curiosidade seria uma explicação rasa. Para o mestre Eduardo Navarro, é o caso de um desejo mais profundo: o de se reconectar a um Brasil selvagem que nos habita.

Enquanto “a civilização entristece o animal humano”, diz Navarro, o tupi nos abre uma trilha para encontrar “aquilo que temos de mais prístino, de mais primitivo dentro de nós”.

E aí nos revelamos bem mais indígenas do que o imaginado – das palavras herdadas ao comportamento generalizado. A impontualidade do brasileiro, a falta de planejamento, a despreocupação e o viver o presente são traços do índio, do caboclo, do caipira, já que a natureza supria o necessário. São valores de uma sociedade não cumulativa e que se contentava com o simples. Visões que o mundo urbano, eurocêntrico e capitalista tenta alterar à sua própria imagem.

Geógrafo de formação e doutor em Letras, Eduardo de Almeida Navarro ensina tupi na Universidade de São Paulo com base em um método criado por ele e lançado em 1998. Às vésperas da celebração dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, a primeira edição de seu livro Método Moderno de Tupi Antigo ganhou patrocínio da Fiesp e ampla cobertura da mídia – com isso, a disciplina passou a ser muito procurada na USP. Hoje ele leciona Tupi Antigo e Tupi Moderno (nheengatu) para mais de 200 alunos

Na sua história de vida, o que o levou ao estudo da língua tupi?

Desde muito cedo sempre fui um nacionalista, sabe? É curioso. Quando adolescente, vivi na época dos militares. Havia um forte nacionalismo nas escolas, diversas comemorações cívicas… Eu também viajei bastante pelo Brasil rural, meus pais são do interior de São Paulo, eu mesmo sou de Fernandópolis – sou caipira, portanto. Então vivi muito em fazendas, na época em que não havia o agronegócio, o “capitalismo” ainda não tinha invadido o campo (risos). Meu avô fundou uma cidade ao noroeste de Cuiabá [Nova Olímpia] e visitávamos lugares muito afastados…

Tudo isso foi me fazendo admirar o Brasil, justamente em um momento de desnacionalização da economia brasileira e quando a juventude estava muito empolgada pelos modelos de cultura que vinham dos Estados Unidos. Quando todo mundo queria usar um All Star, eu usava Vulcabrás (risos)! Isso marca muito a nossa formação.

A primeira faculdade em que entrei foi a São Francisco e logo vi que não era para mim: eu queria viver no interior. Fui para Rio Claro, na Unesp, estudar Geografia. Por meio da Geografia é que foi nascendo meu interesse pela língua tupi, dada a grande penetração que a língua tem nos lugares do Brasil.

Depois voltei pra São Paulo e fiz doutorado em Letras. Em 1993 eu ingressei na USP como professor de língua tupi. Foi uma forma de responder àqueles meus anseios nacionalistas, aquele amor pelas coisas tradicionais do Brasil. Eu sei que é difícil entender uma postura dessas hoje em dia, mas é o que eu vivi. Durante muito tempo fui muito recalcitrante em relação à cultura americana, tinha um pouco de ojeriza pelo inglês. Passei a ter um pouco mais de aceitação pelos Estados Unidos depois da eleição do Barack Obama.

Algo bem recente!

Sim, uma coisa bem recente. Eu tinha muita relutância em aceitar a cultura americana.

Isso devido ao imperialismo americano, à dominação?

Sim.

Mas os portugueses, quando vieram ao Brasil, também eram imperialistas.

É certo que foi um império, mas eu me sinto um ibérico, um descendente de português. E o Brasil é esse encontro de Portugal com o mundo ameríndio e a África. É algo notável: o único continente em que culturas de três continentes se encontraram foi a América. As colônias portuguesas na África não tiveram o elemento ameríndio. As colônias portuguesas na Ásia não tiveram o elemento africano. Essa riqueza daqui foi que me chamou a atenção muito cedo.

Os portugueses, quando chegaram, tiveram de aprender tupi para dominar?

Isso mesmo. A língua tem três fases. A mais antiga, falada na costa brasileira, que podemos chamar de tupi antigo, foi necessariamente aprendida pelos portugueses e era falada pelos Tupinambá, Tupiniquim, Tamoio, Potiguar, Tabajara, Caetés, vários grupos. No século XV, antes de os portugueses chegarem, esses grupos se instalaram na costa. Tinham a mesma origem, a mesma cultura, todos eram antropófagos e falavam a mesma língua, que podemos chamar de tupi antigo. Com o passar do tempo, os portugueses aprenderam essa língua e foi sendo criada a língua geral – amazônica, paulista –, que seguiu dominando o interior do Brasil. Aí, no século XIX, temos o nheengatu, é a terceira etapa do desenvolvimento histórico do tupi antigo. Hoje, somente o nheengatu existe, ainda falado.

Quem são os interessados em aprender tupi antigo hoje?

Temos alunos de Letras, de História, mas também de Engenharia da USP, médicos.

Muitos vão por curiosidade?

É um curso fundamental para a compreensão desse Brasil profundo, sabe? Esse Brasil anterior à imigração europeia. Os caipiras de São Paulo falavam essa língua. Os caboclos, os povos da Amazônia. Era uma língua de coesão. Entre outros fatores, permitiu ao Brasil manter sua coesão territorial.

O senhor diz que estudar o tupi leva a um resgate do nosso inconsciente selvagem. O que isso significa e por que isso é bom?

Isso é bom porque a civilização entristece o animal humano, aquilo que temos de mais prístino, de mais primitivo dentro de nós. Esse macaco mal evoluído que somos (risos). Hoje, por meio de estudos da genética, da antropologia e da primatologia, estamos chegando à conclusão que não somos tão humanos como pensávamos. Essas ideias de que o homem não é natureza, o homem é cultura, isso está sendo revisto. Como fica essa dimensão primata nossa? Totalmente distanciada da natureza, vivendo em adensamentos de milhões de pessoas, sem contato com as árvores, com a terra, com nada natural? O tupi tem essa propriedade de pôr em contato com esse Brasil natural. Quando eu começo a revelar essa nossa camada indígena, os alunos ficam boquiabertos.

Pode dar um exemplo?

Quando eu falo: vamos para com esse nhem-nhem-nhem, gente? Nhe’eng em tupi é falar. Ficar de nhem-nhem-nhem é ficar falando sem parar. Nós podemos estar em um ambiente urbano, mas mantemos essas raízes do tempo colonial. Do tempo em que a cara do paulistano era outra, era indígena. Não tinha o rosto branco. Era o mestiço, o caboclo, o caipira. Tudo isso o tupi vai revelar: a nossa face indígena que parece tão distante, mas não está.

O DNA indígena é o mais presente na população brasileira. Uma pesquisa do ano 2000 feita pelo geneticista Sérgio Pena, de Minas Gerais, mostrou que, de 200 brasileiros ditos brancos, 39% tinham, pela via materna, ascendência indígena e 22% de ascendência africana. O que sobra? Dos brancos, boa parte não é branca. Somos, sem dúvida alguma, um país mestiço, isso é que torna o Brasil um país interessante.

O português era racista? Era. Era um dominador? Era. No entanto, não teve dificuldade no Brasil de se miscigenar. Nas demais colônias, o português buscava mão de obra escrava e não se misturou, mas, no Brasil, as índias e africanas viviam dentro da casa-grande. Eram essas mulheres que criavam os filhos dos portugueses e com elas é que eles tinham filhos bastardos.

O que o tupi simboliza ao não usar tempos verbais e nem uma matemática avançada – conta-se apenas até 4? No que mais o tupi difere em relação ao pensamento das demais línguas, como as greco-latinas, as anglo-saxônicas, as semíticas?

O tupi é uma língua simples, mas que permite muitas combinações entre as palavras. Estamos diante de uma cultura que não reconhecia o Estado, nem a propriedade privada, nem o trabalho escravo. Estavam no início de uma cultura agrícola, mas muito incipiente, que não tinha levado ainda à propriedade privada. Nessas condições, um sistema de contagem era desnecessário. Era um pensamento mesmo diferente. Eles viviam o presente. O índio que está sem contato com o branco vive o agora, não tem a mínima preocupação em acumular nada. Não há planejamento. Isso vai influir muito na formação do brasileiro. Onde vamos buscar as raízes da nossa impontualidade, hein? Não é no europeu, embora o português não seja nenhum britânico. Onde vamos buscar essa despreocupação com o amanhã do nosso caboclo, para quem o essencial está mais que suficiente? Onde vamos buscar esse espírito de desorganização? Gente que não gosta do trabalho pesado? Isso tudo vamos encontrar no índio, que está presente na formação do caráter nacional do brasileiro.

Que não é ruim nem bom?

Não, simplesmente é assim. Você não vai julgar isso. Se você der para um grupo de índios 20 quilos de café, em vez de guardar para beber ao longo de dois meses, eles vão fazer café até acabar. Tem um lado bom de se levar a vida mais despreocupada, mais leve, mas tem um lado ruim porque você pode ficar à mercê das injunções do tempo, da escassez, das dificuldades.

Em uma sociedade que vive sob condições perfeitas da natureza, de fato não é preciso planejar nem acumular, pois os recursos estão ali o tempo todo. O problema é que essas condições foram diminuindo pela ação do homem branco, certo?

Exatamente. Uma vez, um cacique perguntou a um francês que estava na Guanabara: “Por que vocês, maíras (franceses), vêm buscar madeira de tão longe para se aquecerem? Não tem madeira na terra de vocês?” O francês respondeu: “Sim, temos, mas é que viemos buscar essa madeira para fazer tintura.” “Mas por acaso vocês precisam de muita madeira?” “Sim, porque só um homem no meu país compra todo o carregamento de um navio.” “Então esse homem é muito rico?” “Sim, ele é muito rico, tem muitas coisas.” “E para quem ficam as coisas depois que ele morre?” “Para os filhos, ou parentes mais próximos.” “Agora eu vejo que vocês, maíras, são todos uns loucos. Vocês atravessam o oceano, correm perigos enormes conforme vocês nos contam, passam necessidade na viagem… para quê? Para ficar acumulando coisas para deixar pros filhos? Será que a terra que alimentou vocês não consegue alimentar seus filhos também? Aqui nós sabemos que a terra que nos nutriu vai nutrir nossos filhos, então ficamos despreocupados.” Essa é uma lição de vida enorme. Isso foi narrado no livro História de Uma Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry.

Então você pode ser descendente de europeus, de árabes, de japoneses, mas a cultura cabocla vai permear essa formação. Os europeus chegaram ao Brasil e se acaipiraram. Quem era Adoniran Barbosa? Um símbolo da São Paulo do Século XX, da São Paulo industrial, filho de italiano. E o que ele cantava? Ele usava o dialeto caipira: O Arnesto nos convidou/ Prum samba/ Ele mora no Brás/ Nóis fumo e num encontremo ninguém/ Nóis vortemo cuma baita duma reiva/ Da outra vez/ Nóis num vai mais.

O quanto a civilização dominante no Brasil está aberta aos valores e às visões de mundo de povos indígenas?

Existe com relação ao índio duas posturas básicas. O mundo urbano industrial não vê o índio com bons olhos e existe muito preconceito. Mas também há um outro aspecto: existe uma romantização do índio, uma idealização. Isso aconteceu no século XIX. Os índios que estavam vivos naquela época não eram interessantes para os escritores e para os ideólogos do Romantismo – mas sim os índios do passado. O Romantismo idealizava esse passado das nações.

O bom selvagem [mito desenvolvido pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau] é um exemplo?

Isso mesmo. Na França, na Alemanha, você vai ver isso. A busca das raízes nacionais. Isso aconteceu no Brasil também. Mas quem vai ser o objeto desse interesse? O índio que estava no passado, e não o índio vivo que está lá…

… competindo pelas terras onde o branco quer explorar minério, fazer agricultura e hidrelétrica.

Esse índio não atrai, não. Mas temos um outro aspecto. Vivemos em um mundo cada vez mais poluído, urbanizado. Nesse contexto massacrante de vida urbana, caótica e muitas vezes sem sentido, em que você passa horas no trânsito para poder chegar ao trabalho, existe uma mística em torno desses que vivem de outra maneira. Quando sonhamos com uma vida mais tranquila, em contato com a natureza, estamos dialogando com o primitivo que está dentro de nós. Estamos dialogando com os índios. Aí vem uma admiração, um encantamento. Você veja, eu já tive alunos do mundo corporativo. De vez em quando aparecem pessoas que estão em busca de um sonho, mesmo. Eles pensam: “Já que não posso ter essa vida livre, pelo menos eu vou estudá-la”.

Não que a vida mais selvagem seja fácil.

Não. Por isso é uma romantização.

O número populacional de índios tende a crescer. Mas a cultura indígena tende a enfraquecer?

Sem dúvida. A cultura tende a enfraquecer, os valores tendem a mudar. Os jovens passam a não aceitar mais o que seus pais e avós ensinaram, não querem mais aquela vida, querem acesso aos aparelhos tecnológicos mais avançados etc. Isso produz um questionamento sério de seus valores e tradições. Essa situação dificilmente será favorável aos índios.

Mas essa é uma questão de inserção e de troca cultural, não? Isolar a cultura indígena seria o melhor caminho? Essa confluência pode criar uma cultura mestiça?

Nenhuma cultura é pura, toda cultura é fruto de encontros, isso pode ser enriquecedor. Mas é um desafio, e para muitos é algo realmente traumático.

E que acontece desde 1500.

Ah, sim, essa história já é antiga…

Por que a língua geral que já era falada em grande parte do território, inclusive pelos colonizadores, não se tornou a língua oficial do Brasil em vez do português?

Por vários fatores, um deles a imigração europeia do século XIX, que foi maciça. Até então, a língua geral era falada no interior de São Paulo. E na Amazônia o fator foi a migração nordestina. Com o ciclo da borracha, milhares de nordestinos que foram viver na Amazônia para fugir da seca levaram a língua portuguesa. Os nordestinos não tiveram uma língua geral. Além disso, a língua geral não era escrita, era só falada. A falada tem menos prestígio, a gente chama isso de diglossia. A de prestígio é ensinada nas escolas, a sem prestígio é falada em casa, é a língua do povão. Aí fica essa ambivalência, isso acontece em muitos lugares do mundo. No árabe, por exemplo, tem uma língua que se escreve e as línguas que se falam, que são vários dialetos.

Então uma forma de preservar uma língua é escrevê-la?

Sim, para haver algum fortalecimento, uma escolarização. Os alunos na USP estão traduzindo obras da literatura universal, por exemplo, O Pequeno Príncipe, que será traduzido para o nheengatu e distribuído na Amazônia.

Escrever não contradiz a essência dessas línguas, que é a oralidade?

Não. Claro que não é o ideal, o ideal é que elas pudessem se manter pela fala. Mas essas são as línguas-testemunho, são relíquias que precisam ser conhecidas para nós mesmos nos conhecermos.

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