As exigências ambientais, sociais, sanitárias e de rastreabilidade da União Europeia tendem a elevar padrões de produção, proteger a natureza, reduzir riscos climáticos, ampliar a segurança dos consumidores e combater práticas inadequadas em cadeias produtivas complexas. Ao mesmo tempo, podem funcionar como barreiras não tarifárias. A discussão não deve ser reduzida a ser contra ou a favor da agenda europeia, e sim reconhecer que sustentabilidade também virou instrumento de competitividade e de disputa por mercado
Por Eliana Camejo*
O acordo Mercosul União Europeia reacendeu uma expectativa legítima no setor produtivo brasileiro. Há oportunidades reais para exportadores, indústrias, agroindústrias, cooperativas e fornecedores que atuam em cadeias globais. Mas os primeiros movimentos desta nova fase deixam claro que o acesso ao mercado europeu não será medido apenas por tarifa menor, preço competitivo ou capacidade de entrega. A pergunta central passa a ser outra. A empresa brasileira conseguirá provar como produz, de onde vem sua matéria-prima, quem participa da sua cadeia e quais riscos ela controla?
Essa é a mudança mais importante e, talvez, a menos compreendida. A Europa abriu uma porta, mas mudou a fechadura. O mercado europeu está cada vez mais orientado por rastreabilidade, regularidade documental, controles ambientais, práticas trabalhistas, integridade, segurança sanitária, governança e gestão de riscos. Temas que antes ficavam no campo institucional agora entram no centro da negociação comercial.
Preço, escala e qualidade continuam essenciais. Mas já não bastam. O novo comércio internacional será decidido também por confiança. E confiança, nesse ambiente, não é uma declaração de boa intenção. É capacidade de comprovação.
As exigências ambientais, sociais, sanitárias e de rastreabilidade da União Europeia têm um papel positivo. Elas podem elevar padrões de produção, proteger a natureza, reduzir riscos climáticos, ampliar a segurança dos consumidores e combater práticas inadequadas em cadeias produtivas complexas. Esse avanço não deve ser desconsiderado.
Ao mesmo tempo, seria ingênuo ignorar que essas exigências também produzem efeitos comerciais concretos. Na prática, podem funcionar como barreiras não tarifárias, principalmente quando impõem custos, sistemas de controle, documentação e padrões técnicos que muitos fornecedores de países emergentes ainda não conseguem comprovar com a mesma estrutura das empresas europeias. A discussão não deve ser reduzida a ser contra ou a favor da agenda europeia. O ponto é reconhecer que sustentabilidade também virou instrumento de competitividade e de disputa por mercado.
Para o Brasil, a resposta não pode ser apenas reclamar da régua. É preciso aprender a competir dentro dela, sem deixar de questionar excessos, assimetrias ou medidas com efeito protecionista. O País tem força produtiva, biodiversidade, agricultura tecnificada, matriz energética comparativamente limpa e empresas que já avançaram em controle e inovação. Mas precisa transformar esses ativos em evidências, documentos, indicadores e governança.
No agronegócio, esse debate é ainda mais direto. Cadeias como carne bovina, soja, café, cacau, madeira, papel e celulose, couro, borracha, alimentos processados, embalagens e insumos industriais tendem a ser mais observadas. Muitas já convivem com exigências sanitárias, ambientais e comerciais há anos. O que muda agora é a intensidade da cobrança e a necessidade de demonstrar controle sobre toda a cadeia.
Um produtor, uma cooperativa, uma indústria regional, uma trading ou uma empresa de logística podem ser questionados sobre origem da matéria-prima, regularidade ambiental da propriedade, risco de desmatamento, documentação de fornecedores, condições de trabalho, emissões, uso de insumos, transporte e armazenagem. Essa cobrança pode aparecer em uma cláusula contratual, em uma auditoria, em um formulário de comprador, em uma exigência de banco, em uma seguradora ou em uma política interna de uma multinacional.
Por isso, o impacto não ficará restrito às grandes exportadoras. Ele pode chegar a fornecedores, subfornecedores, prestadores de serviço, transportadoras, armazéns, beneficiadoras, frigoríficos, indústrias locais e cooperativas. Mesmo empresas que nunca venderam diretamente para a Europa podem ser afetadas se estiverem dentro de uma cadeia que abastece esse mercado.
A grande pergunta é se as empresas brasileiras estão preparadas. A resposta honesta é que o País vive estágios diferentes de maturidade. Há empresas e setores que já avançaram bastante. Muitas companhias exportadoras têm controles, certificações, auditorias, rastreabilidade e experiência com compradores internacionais. Parte do agro, da indústria de alimentos, de papel e celulose, de cosméticos, de autopeças e de cadeias industriais já conhece essa pressão.
Mas uma parcela expressiva das empresas brasileiras, especialmente pequenas e médias, ainda não está pronta. Muitas têm boas práticas, mas não têm método. Fazem controles, mas não organizam evidências. Conhecem seus fornecedores, mas não têm rastreabilidade estruturada. Cumprem obrigações legais, mas não conseguem transformar isso em documentação clara para responder a clientes, auditorias, bancos ou exigências internacionais.
O risco, portanto, não é apenas a empresa estar irregular. O risco é ela não conseguir provar que está correta. Essa diferença é decisiva. No mercado europeu, boa intenção não substitui evidência. Declaração genérica não substitui documento. Reputação construída informalmente não substitui governança. Sustentabilidade, quando não está organizada, perde força como argumento comercial.
Isso não significa que todas as empresas precisem criar estruturas complexas ou caras. Pequenas e médias empresas não devem copiar modelos de grandes companhias. Precisam começar pelo essencial. Diagnóstico de riscos, organização documental, mapeamento de fornecedores, políticas básicas, indicadores possíveis, responsabilidades internas, rastreabilidade mínima e capacidade de responder com segurança às perguntas de clientes e compradores.
O ESG, nesse contexto, deixa de ser uma sigla distante. Passa a ser uma forma prática de organizar a empresa para reduzir riscos, proteger contratos, acessar mercados e aumentar competitividade. Não é uma peça de marketing. É infraestrutura de mercado. É gestão, prova, processo e governança.
O acordo Mercosul União Europeia abre uma janela importante para o Brasil. Mas essa janela não será igual para todos. Ela favorecerá quem se preparar primeiro, quem conseguir unir produção, rastreabilidade e comprovação, quem entender que sustentabilidade não é obstáculo ao negócio, mas condição para permanecer em determinados mercados.
A empresa brasileira não precisa responder à Europa apenas com resistência. Precisa responder com método, evidência, gestão e estratégia. Porque, no novo comércio internacional, quem não prova, não participa.
*Eliana Camejo é vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli, conselheira de administração pelo IBGC e especialista em ESG pelo Ibmec.

