Segundo o Índice Municipal de Gênero, mesmo com a eleição de 109 deputadas federais, a participação política é desafio nos municípios: 726 cidades não contam com vereadoras e 68,7% não têm Conselho Municipal dos Direitos da Mulher
As eleições gerais de 2026 ampliaram a presença feminina na Câmara dos Deputados, mas o avanço permanece insuficiente e contrasta com uma exclusão política muito mais profunda na escala municipal. De acordo com os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 109 mulheres foram eleitas deputadas federais, ante 91 em 2022. A maior bancada feminina ocupará 21,2% das 513 cadeiras, mas o percentual é bem menor em comparação ao percentual destinado às cotas partidárias, de 30% e ainda mais em relação a sua representação populacional de 51,5%.
Nas assembleias legislativas, os resultados também indicam avanços em parte dos estados, mas sem alterar a sub-representação estrutural. Em São Paulo, foram eleitas 28 mulheres para 94 cadeiras; em Minas Gerais, 20 para 77. O que evidência desigual entre unidades da Federação e ainda distante da paridade.
O Índice Municipal de Gênero (IMG) 2026, instrumento que mede a condição de vida das mulheres no Brasil em sete dimensões (saúde, educação, trabalho e renda, participação política, segurança, infraestrutura e mobilidade e proteção social), mostra que participação política apresenta o pior desempenho, com média nacional de 29,59 pontos e mediana de 16,66, em uma escala de 0 a 100.
O índice considera a proporção de mulheres eleitas para as câmaras municipais em 2024 e a existência de Conselhos Municipais dos Direitos da Mulher. O IMG foi desenvolvido pela Tewá 225, consultoria que realiza estudos e projetos para enfrentar problemas socioambientais das empresas, organizações e governos.
Os dados do IMG evidenciam uma participação política frágil, já que 68,7% dos municípios não possuem Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, em 726 cidades, nenhuma mulher foi eleita vereadora e, em 526, as duas ausências se acumulam. A média municipal de vereadoras eleitas foi de apenas 18,52% em 2024. O Nordeste alcança a maior pontuação média na dimensão, com 38,17 pontos, enquanto o Sudeste apresenta a menor, com 22,14. A diferença regional decorre principalmente da presença ou ausência de conselhos, mais do que da variação na proporção de mulheres eleitas.
Apesar de o Brasil eleger mais mulheres para a Câmara em 2026, três estados não elegeram nenhuma deputada federal e, nos municípios, centenas de câmaras de vereadores seguem sem uma única mulher eleita. A representação feminina continua minoritária nos espaços que definem orçamento, fiscalização e prioridades públicas, e a lacuna é ainda mais severa onde as políticas chegam à vida cotidiana.
Participação política como influência
De acordo com os dados obtidos no IMG, a presença de mulheres nas câmaras e em instâncias de controle social amplia a possibilidade de que necessidades concretas entrem no planejamento, no orçamento e na fiscalização municipal. Creches, saúde sexual e reprodutiva, prevenção da violência, mobilidade, educação e proteção social dependem de decisões políticas, capacidade institucional e participação social.
A exemplo, dos 50 municípios com maiores pontuações gerais e os 50 com menores resultados, participação política apresenta a maior distância, de 56,76 pontos. Nos municípios mais bem posicionados, a média chega a 67,62; no grupo com os piores resultados, cai para 10,86. Os dados sinalizam que a infraestrutura política e institucional voltada às mulheres está associada à capacidade do território de oferecer condições de vida mais favoráveis.
“A eleição de mais mulheres para o Congresso é um avanço que precisa ser reconhecido, mas o IMG mostra que a democracia ainda não chega de forma igual aos territórios. Sem mulheres decidindo, fiscalizando e participando, o município corre o risco de continuar planejando para uma população que não enxerga por inteiro”, afirma Luciana Sonck, mestre em planejamento territorial, especialista em governança e CEO da Tewá 225.
Entre as ações prioritárias indicadas pelo IMG estão criar ou fortalecer Conselhos Municipais dos Direitos da Mulher, com participação efetiva da sociedade civil; incluir mulheres nas instâncias de planejamento, orçamento e controle social; e promover formação política e condições de participação para mulheres negras, indígenas, com deficiência, jovens, idosas, rurais e periféricas.
