A agenda finalmente conquistou espaço no centro das decisões das empresas. Paradoxalmente, o estudo internacional State of the Sustainability Profession revela que “desanimado” é a palavra mais utilizada para definir o momento atual da carreira e que mais da metade dos entrevistados cogita deixar o ambiente corporativo. Entenda as possíveis razões desse fenômeno
Por Laura Peiter*
A sustentabilidade corporativa pode estar vivendo um paradoxo que ainda discutimos pouco. Justamente no momento em que conquista o espaço que sempre reivindicou dentro das empresas, cresce o número de profissionais que questionam se ainda querem construir carreira nessa área. Os dados ajudam a ilustrar esse movimento.
O Panorama ESG 2026, da Amcham Brasil e Humanizadas, mostra que quase metade das empresas ampliou investimentos e equipes dedicadas ao tema nos últimos dois anos. Já o estudo internacional State of the Sustainability Profession revela que “desanimado” é a palavra mais utilizada para definir o momento atual da carreira e que mais da metade dos entrevistados cogita deixar o ambiente corporativo. À primeira vista, parece uma contradição. Mas talvez as duas pesquisas contem exatamente a mesma história.
Durante anos, o desafio de quem trabalha com sustentabilidade era convencer as lideranças de que clima, direitos humanos, biodiversidade e impacto social não eram apenas temas reputacionais, mas fatores capazes de influenciar competitividade e geração de valor. Nas empresas que amadureceram essa agenda, a evolução natural foi incorporá-la à estratégia do negócio.
Em muitas empresas, essa transformação já aconteceu. A sustentabilidade passou a participar das decisões sobre investimentos, riscos, cadeia de fornecedores, estratégia e crescimento. E, justamente por conquistar esse espaço, passou a ser cobrada pelas mesmas regras aplicadas às demais áreas estratégicas da empresa.
Antes, a principal habilidade de um líder de sustentabilidade era mobilizar pessoas, construir cultura e desenvolver projetos de impacto. Essas competências continuam importantes, mas deixaram de ser suficientes. Agora, espera-se que esse profissional também demonstre retorno sobre investimento, acompanhe indicadores e traduza a sustentabilidade em linguagem de negócio.
Essa mudança de perfil acompanha uma transformação mais ampla dentro das organizações. Hoje, muitas empresas têm a área de sustentabilidade em estruturas compartilhadas — não por que a agenda tenha perdido importância, mas porque deixou de estar concentrada em um único departamento. A sustentabilidade passou a ser uma responsabilidade transversal, distribuída entre áreas como Finanças, Jurídico, Recursos Humanos, Operações e Estratégia.
Ao mesmo tempo, vejo empresas reduzindo o número de iniciativas para concentrar esforços naquilo que realmente influencia sua competitividade. Para permanecer no centro das decisões, a sustentabilidade precisa disputar recursos com as demais prioridades da empresa e provar valor. Não por acaso, uma das principais dificuldades apontadas pelas empresas na pesquisa da Amcham é justamente demonstrar o retorno financeiro dos investimentos em sustentabilidade.
Talvez seja aí que nasça o sentimento de frustração captado pelo estudo internacional. Muitos profissionais ingressaram nessa carreira motivados pela possibilidade de transformar realidades. Hoje, porém, passam boa parte do tempo construindo indicadores, justificando investimentos, acompanhando métricas e traduzindo impacto socioambiental em linguagem financeira. Essa mudança também transformou a identidade da profissão.
Durante muito tempo, acreditamos que o grande desafio da sustentabilidade era conquistar espaço dentro das empresas. Hoje, o desafio parece outro: formar líderes capazes de conciliar propósito e performance sem transformar uma coisa em inimiga da outra.
Nos últimos meses, muito se falou sobre um possível enfraquecimento dessa agenda diante das pressões econômicas e geopolíticas, mas talvez essa interpretação esteja olhando apenas para a superfície. O movimento mais importante não é a perda de espaço da sustentabilidade, mas o fim da sua excepcionalidade.
Nas empresas em que essa agenda amadureceu, a sustentabilidade deixou de ser uma área que precisava convencer para se tornar uma área que precisa entregar resultados. Para alguns profissionais, isso pode representar uma mudança de identidade. Para as empresas, é justamente o sinal de que a sustentabilidade deixou de ser um compromisso paralelo para se tornar parte da forma como os negócios criam valor.
*Diretora de sustentabilidade da Profile
