Enquanto o debate climático geralmente ocorre por meio de grandes números, projeções e acordos internacionais, as transformações ambientais são percebidas nos territórios a partir de experiências concretas. É na vida cotidiana que as comunidades observam aquilo que ameaça suas formas de sustento, seus deslocamentos, suas relações com a floresta e seus modos de viver, ampliando o conceito de educação ambiental
Por Beto Silva e Fernanda Mendes*
“Somos povos de trajetória, não somos povos de teoria.” A frase de Nêgo Bispo nos acompanha porque diz muito sobre a forma como aprendemos com as comunidades amazônicas. O conhecimento não está separado da vida: ele se constrói no trabalho da roça, na relação com o rio, no mutirão, na observação do tempo, nas conversas entre vizinhos e naquilo que uma geração aprende com a outra.
Esse pensamento ganha outra dimensão diante da urgência climática. Enquanto parte desse debate acontece por meio de grandes números, projeções e acordos internacionais, as transformações ambientais são percebidas nos territórios a partir de experiências concretas. É na vida cotidiana que as comunidades observam aquilo que ameaça suas formas de sustento, seus deslocamentos, suas relações com a floresta e seus modos de viver.
Há mais de duas décadas, a Vaga Lume trabalha em parceria com comunidades rurais, ribeirinhas, quilombolas e indígenas nos nove estados da Amazônia Legal, apoiando a criação e o fortalecimento de bibliotecas comunitárias. Nesse percurso, aprendemos que a escuta não pode ser apenas uma etapa pontual nem um recurso para confirmar ideias previamente definidas: ela é parte essencial da perspectiva e da metodologia de trabalho da organização.

Na prática, isso significa construir os processos a partir das experiências, dos conhecimentos e das questões trazidas pelas próprias comunidades. À Vaga Lume cabe promover espaços de troca e compartilhamento, sistematizar o que emerge desses encontros e contribuir para que esses saberes e modos de fazer circulem e dialoguem com livros, leituras e outros conhecimentos. A participação das comunidades, portanto, é condição para a construção das ações.
Quando falam sobre sua relação com a natureza, por exemplo, as comunidades destacam as condições que sustentam a vida, os conhecimentos transmitidos entre gerações e as formas coletivas de cuidado com os lugares onde vivem.
Na Aldeia Aminã, em Santarém (PA), por exemplo, a comunidade conta que os cuidados aprendidos com os mais velhos incluem não jogar lixo no rio, não desmatar e continuar plantando. Na Comunidade Graças a Deus, em Castanhal (PA), onde muitas famílias vivem da agricultura familiar, a escuta destacou a importância de observar “o tempo certo de plantar” e de “ter paciência com a terra e respeitar seu ritmo”. São conhecimentos produzidos na convivência com o território e atualizados pelas necessidades de cada geração.
Esses cuidados também se traduzem em acordos e práticas comunitárias. Na comunidade Manoelzinho, em Barreirinhas (MA), existem orientações coletivas sobre o uso do fogo, o desmatamento e a proteção dos rios, além de mutirões de limpeza e ações de replantio da mata ciliar. Ao falar sobre o futuro, a comunidade expressou o desejo de que as novas gerações não deixem desaparecer “as boas práticas de roda de conversa debaixo da mangueira” e que as crianças participem dos mutirões para compreender a importância da conservação da natureza.
Essa fala aproxima dimensões que muitas vezes aparecem separadas: o cuidado ambiental, a convivência comunitária, a memória e a transmissão de conhecimentos. Cuidar do território não se resume a uma ação isolada. É um processo que envolve relações, acordos, responsabilidades compartilhadas e oportunidades para que pessoas de diferentes idades aprendam umas com as outras.
E esse cuidado acontece, muitas vezes, em meio a conflitos e ameaças. Em Urucureá, no Rio Arapiuns, em Santarém (PA), a comunidade relatou viver sob a pressão de mineradoras interessadas no território. Diante disso, lideranças e comunidades do assentamento se articulam por meio do projeto Bem Viver, criado, segundo os próprios comunitários, “para não deixar que as mineradoras tomem nosso lugar”. Proteger os rios, a floresta e as espécies que garantem a alimentação significa, nesse contexto, defender também o direito de permanecer no território e de preservar modos de vida construídos ao longo de gerações.
Essas experiências ajudam a compreender a educação ambiental para além da transmissão de informações sobre o meio ambiente. Ela pode começar pela criação de condições para que as pessoas observem o que acontece ao seu redor, compartilhem o que sabem, reconheçam os conflitos que atravessam seus territórios e construam coletivamente possibilidades de ação.
É nesse contexto que a biblioteca comunitária afirma seu papel como espaço de encontro, escuta e circulação de saberes. Construída em parceria com a comunidade e mantida por pessoas do próprio território, ela não substitui outras organizações, práticas ou espaços comunitários, tampouco responde sozinha aos desafios ambientais. Pode, no entanto, constituir-se como um espaço de continuidade para as conversas e iniciativas da comunidade: um lugar onde diferentes gerações se reúnem, histórias são compartilhadas e questões do cotidiano podem ser reconhecidas como preocupações comuns, ganhando atenção e possibilidade de mobilização coletiva. Ao mesmo tempo, o contato com livros, leituras e outras experiências amplia repertórios, estimula o pensamento crítico e oferece novas referências para compreender a realidade e imaginar caminhos possíveis.
A comunidade Boa Vista, em Castanhal (PA), oferece um exemplo concreto dessa atuação. Além de manter um acervo voltado à educação ambiental, a biblioteca participa de iniciativas para reduzir o uso de materiais descartáveis e se articula a ações de cuidado com o Rio Apeú e com as árvores centenárias da comunidade. Ela integra, portanto, uma rede de relações e mobilizações que já existem no território, oferecendo mais um espaço para fortalecê-las e ampliar sua circulação.
As mudanças observadas no rio, os impactos de uma queimada, as práticas desenvolvidas na roça ou as memórias sobre uma espécie que já não é encontrada com a mesma frequência podem se tornar temas de leitura, conversa, desenho, pesquisa ou registro. Ao acolher essas experiências, a biblioteca não se apropria dos conhecimentos da comunidade nem assume para si a tarefa de preservá-los. Ela contribui para que sejam compartilhados, relacionados a outros saberes e recriados no encontro entre crianças, jovens, adultos e pessoas mais velhas.
Uma das mensagens mais significativas que nos chegou em nossas ações de escuta veio da comunidade Vila Brasil, em Santarém (PA): “Não tomem decisões longe de quem cuida da floresta com o coração”.
A afirmação chama atenção para uma questão central. As populações amazônicas não podem ser consideradas apenas destinatárias das decisões climáticas ou grupos afetados por processos definidos em outros lugares. Elas observam o território, produzem conhecimentos, constroem práticas de cuidado e precisam participar das discussões que interferem diretamente em suas vidas.
Essa compreensão também desloca o lugar da Vaga Lume. A organização não leva respostas prontas aos territórios nem transforma a biblioteca em instrumento de uma agenda estabelecida de fora. Seu trabalho busca fortalecer relações de parceria, criar espaços de formação e troca e contribuir para que as bibliotecas comunitárias acolham as perguntas, os saberes e iniciativas das próprias comunidades.
Como nos lembra Ailton Krenak, não estamos fora da natureza, somos parte dela. Perceber e praticar essa interdependência exige rever uma ideia de desenvolvimento baseada na exploração ilimitada da floresta e compreender que preservar a natureza é também proteger as condições que tornam possíveis as vidas humanas, animais e vegetais. Talvez uma das contribuições das bibliotecas comunitárias para a educação ambiental esteja justamente aí: na possibilidade de reunir pessoas, histórias, leituras e conhecimentos para imaginar outras maneiras de construir o futuro.
*Autores:
Beto Silva é coordenador de Metodologia e Expansão da Vaga Lume
Fernanda Mendes é líder de Sistematização da Vaga Lume
