Alimentar-se bem exige tempo, e o tempo das mulheres – a quem geralmente é atribuído o papel de cozinhar em sociedades patriarcais e machistas – precisa ser protegido por políticas sociais robustas, diz Emiliano Graziano, do Instituto Fome Zero. Em vez de se recorrer a alimentos ultraprocessados, de preparo rápido mas com excesso de aditivos, ele defende coletivizar o cuidado com a alimentação e adotar políticas públicas estruturantes, entre elas expandir e fortalecer cozinhas comunitárias, restaurantes populares e equipamentos de apoio nas periferias
Por Amália Safatle
Uma publicação no blog do Instituto Fome Zero (IFZ), intitulada “Ultraprocessados, trabalho doméstico e a sobrecarga invisível das mulheres na alimentação familiar”, reconhece a problemática dos alimentos ultraprocessados, mas traz o aspecto do trabalho invisível das mulheres – a quem normalmente é atribuído o papel de cozinhar e substituir os alimentos industrializados. E também pondera que os alimentos industrializados têm algum papel para a segurança nutricional, especialmente diante da dificuldade de acesso e armazenamento de perecíveis. Diante disso, fizemos três perguntas a Emiliano Graziano, diretor de Desenvolvimento Institucional do IFZ:
1.
A alimentação de produtos in natura é certamente a ideal, mas qual sua opinião sobre a realidade do trabalho invisível das mulheres, e da dificuldade, especialmente das que trabalham fora e moram em centros urbanos, em prover alimentos seguros e nutritivos para os filhos – considerando a sociedade patriarcal e machista em que vivemos?
Essa é uma das questões centrais e mais negligenciadas do debate nutricional contemporâneo. Falar em alimentação saudável baseada em produtos in natura sem considerar a divisão sexual do trabalho e a jornada dupla (ou tripla) das mulheres é atuar no campo da abstração teórica. Na prática, a nossa sociedade patriarcal sobrecarregou historicamente as mulheres com o trabalho reprodutivo — o ato de cuidar, planejar, comprar, descascar, cozinhar e limpar. Quando essa mulher precisa trabalhar fora e ainda enfrenta longas horas de transporte público nas periferias dos grandes centros urbanos, o tempo para o preparo de comida fresca simplesmente deixa de existir.
A solução para isso não é resignar-se à transição nutricional para os ultraprocessados, mas sim estatizar e coletivizar o cuidado com a alimentação. A garantia do direito à alimentação saudável para as crianças não pode ser uma responsabilidade individualizada e penalizadora sobre os ombros das mães.
Precisamos de políticas públicas estruturantes como, por exemplo, expandir e fortalecer as cozinhas comunitárias, restaurantes populares e lavanderias/equipamentos de apoio nas periferias, temos ainda que garantir que creches e escolas em tempo integral ofereçam de três a quatro refeições diárias completas, nutritivas e preparadas com produtos in natura da agricultura familiar. Isso alivia a carga do lar e assegura a nutrição infantil. Outro ponto importante é garantir um abastecimento descentralizado (feiras livres e sacolões nos bairros periféricos) para reduzir o tempo de deslocamento e compra. Alimentar-se bem exige tempo, e o tempo das mulheres precisa ser protegido por políticas sociais robustas.
2.
Há uma vilanização excessiva dos alimentos industrializados? O processamento não é desejável, especialmente em regiões mais remotas da Amazônia, com dificuldades de logística e armazenamento de produtos frescos e perecíveis?
É preciso fazer uma distinção conceitual e técnica fundamental que muitas vezes se perde no debate público: processamento alimentar é uma coisa; ultraprocessamento é outra completamente diferente. O processamento e a conservação de alimentos são conquistas civilizatórias essenciais. Sem técnicas de pasteurização, secagem, refrigeração, fermentação e enlatamento, a humanidade não teria superado fomes históricas e não conseguiria abastecer cidades ou regiões isoladas.
Em territórios como a Amazônia — onde as distâncias fluviais são gigantescas e as perdas pós-colheita de perecíveis podem ser altíssimas —, a agroindústria de pequeno e médio porte e o processamento adequado (como a polpa de fruta congelada, a farinha de mandioca, o peixe salgado/seco ou a secagem de grãos) são fundamentais para a segurança alimentar e para o desenvolvimento local.
O problema real, que deve sim ser combatido e regulado, são os produtos ultraprocessados: formulações industriais cheias de aditivos, sódio, gorduras saturadas, açúcares e aromatizantes, projetadas para criar hiperpalatabilidade e substituir a comida de verdade.
O que vilanizamos é o modelo corporativo que empurra ‘calorias vazias’ e baratas para populações vulneráveis.
O caminho correto é investir em tecnologia agroindustrial pública e local na Amazônia e no Semiárido, por exemplo, permitindo que a própria sociobiodiversidade regional seja processada com segurança sanitária, agregação de valor e durabilidade, sem perder a sua qualidade nutricional.
3.
Como equilibrar uma dieta que atenda ao cotidiano das famílias, busque segurança alimentar e nutricional e preserve as condições sociobiodiversas do País?
O equilíbrio entre a rotina acelerada das famílias e a preservação do meio ambiente passa obrigatoriamente pela reconstrução dos sistemas alimentares, conectando a produção sustentável ao consumo urbano por meio do Estado. Não podemos exigir que o consumidor individual, sob o estresse do dia a dia, resolva sozinho as contradições do sistema alimentar. Para atingirmos esse equilíbrio de forma sustentável, precisamos atuar em três frentes integradas.
Nas compras públicas estratégicas, e programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o Pnae (Alimentação Escolar) são as melhores ferramentas que temos. Quando o Estado compra alimentos da agricultura familiar, de povos indígenas e comunidades tradicionais, ele garante mercado para quem preserva a sociobiodiversidade e entrega comida fresca, diversificada e culturalmente adequada onde o povo está (escolas, hospitais, cozinhas comunitárias).
Precisamos ainda redirecionar subsídios e crédito agrícola para a produção de alimentos diversificados (in natura e minimamente processados), e não apenas para commodities de exportação. Se baratearmos o custo da comida de verdade na ponta, facilitamos a escolha das famílias. E, claro, isso envolve desde a rotulagem nos supermercados até o banimento da publicidade infantil de produtos nocivos, combinado a campanhas de conscientização sobre o valor dos nossos biomas (Cerrado, Caatinga, Amazônia, Mata Atlântica).
Preservar a sociobiodiversidade e nutrir as famílias não são objetivos concorrentes; são duas faces da mesma moeda. Só teremos segurança alimentar duradoura se mantivermos a natureza viva e os agricultores e extrativistas no campo, com renda digna e apoio técnico.
